Nutrologia e Cultura

História, ciência e cultura do que comemos

História da alimentação

Apício, o gourmet de Roma

  • Afresco de Pompeia com uma tigela de vidro cheia de frutas, uvas e jarros
  • Afresco romano de um casal reclinado num banquete, com uma serva e uma mesinha de bronze
  • Manuscrito medieval aberto do livro de receitas de Apício, com títulos em vermelho
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Algum desavisado pode imaginar que os romanos se alimentavam com frugalidade. Bem… talvez os que não eram nobres. Quem desmente a ideia é um tal de Marco Gávio Apício, ou simplesmente Apício, que viveu no tempo do imperador Tibério.

Ele ficou conhecido pelas histórias em torno do seu paladar, digamos, diferenciado. Conta Ateneu que, ao saber que os lagostins da África eram enormes, Apício zarpou para lá sem esperar um dia sequer. Perto da costa, os pescadores vieram de barco oferecer os melhores que tinham; decepcionado, ele mandou o navio voltar para a Itália sem sequer desembarcar. Plínio conta que foi ele quem descobriu como aumentar o fígado das porcas, como já se fazia com o dos gansos: engordando-as com figos secos. E a paixão do homem era tamanha que, segundo Sêneca, ele se envenenou num banquete ao descobrir que a fortuna que lhe restava já não bastava para os seus prazeres.

Além de histórias como essas, Apício deixou, ou pelo menos inspirou, o De re coquinaria, considerado o livro de culinária mais antigo que chegou até nós. Na verdade, ele não foi o autor: o livro provavelmente foi dedicado a ele por um compilador desconhecido, e as cópias mais antigas que sobreviveram foram feitas no século IX, a partir de um manuscrito do mosteiro de Fulda, na Alemanha. O livro está dividido por tipos de pratos, que refletem bem a extravagância da nobreza romana. Há, por exemplo, avestruz cozido num caldo com pimenta, hortelã, cominho, alho-poró, semente de aipo, tâmaras, mel, vinagre e vinho de passas, engrossado com farinha. E língua de flamingo? Apício ensinava, segundo Plínio, que tinha um sabor dos mais refinados.

Tanta mistura de ingredientes vindos dos quatro cantos do Império servia não só para acrescentar sabor (duvidoso, a meu ver), mas também para demonstrar opulência e a “sofisticação” de quem desejava projeção social. Coisa de fazer Catão, o Velho, se arrepiar.

Referências

  1. Apício. Cookery and dining in imperial Rome. Tradução e notas de Joseph Dommers Vehling, 1936 (traz os relatos de Ateneu e Sêneca e a história dos manuscritos). https://www.gutenberg.org/ebooks/29728
  2. Plínio, o Velho. História natural, livro 8, cap. 77, e livro 10, cap. 68. Tradução inglesa de John Bostock e H. T. Riley. http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.02.0137:book=8:chapter=77