Nutrologia e Cultura

História, ciência e cultura do que comemos

História da alimentação

O quinto quarto

Da série Cucina povera

Prato de trippa alla romana, tiras de bucho ao molho de tomate com queijo ralado, num restaurante

Na postagem anterior, discutimos um pouco as causas históricas e sociológicas de uma cozinha da necessidade, com cortes e alternativas mais baratas. E usamos a Itália como exemplo típico de como isso pode ser feito em altíssimo nível.

Por isso, é comum na cozinha italiana vermos pratos típicos feitos com cortes considerados menos nobres. Um exemplo é a corata, nome do conjunto das vísceras dos animais abatidos: coração, pulmões, fígado e baço. Nos animais pequenos, como o cordeiro e o coelho, ela vira coratella. E há as animelle, que são o timo dos animais abatidos, em geral de cordeiro ou de vitelo.

Outro caso é a trippa alla romana, parecida com a nossa dobradinha. A trippa é o estômago dos ruminantes, sobretudo dos bovinos: o conjunto das três cavidades que ficam entre o esôfago e o estômago propriamente dito. Ela faz parte do quinto quarto: nos açougues italianos, o nome que reúne o sangue, as patas e as outras partes não nobres do animal. A explicação mais contada para o nome, sem comprovação, é que o animal era dividido em quatro quartos, com os cortes melhores para a nobreza, o clero, os burgueses e os soldados, e o "quinto quarto", a sobra da sobra, ficava para os pobres.

Pelo menos a cucina povera é democrática: a sabedoria popular transformou cortes considerados pouco nobres em pratos de respeito.

Foto: trippa alla romana num restaurante do Trastevere, em Roma, por Schellack, sob licença CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

Referências

  1. Vocabolario Treccani. Quarto; Corata; Coratella; Animella; Trippa. Acesso em 3 nov. 2026. https://www.treccani.it/vocabolario/quarto/