Nutrologia e Cultura

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História da alimentação

De sangue e melancias

Da série Panamá

Capa do jornal Frank Leslie's Illustrated Newspaper de 17 de maio de 1856, com duas gravuras da revolta no Panamá: uma briga de rua e o ataque à estação da ferrovia

Insuspeita entre as frutas, a melancia já foi pivô de um conflito armado internacional.

Comida às vezes dá confusão. Quem não conhece a história de Adão e Eva? E o pomo da discórdia que iniciou a Guerra de Troia? Até uma linguiça foi pivô de uma revolta na Reforma, como já vimos por aqui. Hoje vamos saber como uma melancia, sandía em espanhol, a mais insuspeita das frutas, foi pivô de um conflito internacional.

Cruzar a América de costa a costa sempre foi estratégico para o comércio mundial, sobretudo para os Estados Unidos, depois da corrida do ouro na Califórnia. E muitos preferiam ir por mar, cruzando o istmo do Panamá de trem, a encarar a travessia do oeste americano por terra. Ainda não existia o Canal, que só abriria em 1914; a ferrovia do Panamá era o caminho mais rápido. O Panamá, na época, era um estado da Nova Granada, que depois viria a ser a Colômbia.

Em 15 de abril de 1856, centenas de passageiros americanos esperavam na Cidade do Panamá o navio que os levaria adiante. Um deles, Jack Oliver, descrito como um homem de mau gênio e chegado a uma bebida, pegou uma fatia de melancia, "una tajada de sandía", do vendedor José Luna, e se recusou a pagar o preço: uma moeda de dez centavos. O vendedor foi atrás, e deu confusão. Saiu tiro, o tumulto cresceu, e os americanos, em desvantagem numérica, se abrigaram na estação da ferrovia, onde o confronto continuou. No fim, houve quinze mortos, mais um que morreu dois dias depois e mais de cinquenta feridos entre os americanos, além de pelo menos três mortos e vários feridos entre os moradores.

Na geopolítica, o saldo foi favorável aos Estados Unidos: a Nova Granada foi obrigada a pagar uma indenização de 160 mil dólares, e em setembro de 1856 tropas americanas desembarcaram no Panamá "para proteger interesses americanos".

Por isso, meu amigo, não faça pouco da mais insuspeita das frutas. Respeite a melancia! Ela pode ter também propriedades revolucionárias!

Capa do Frank Leslie's Illustrated Newspaper, de Nova York, de 17 de maio de 1856, com a revolta da melancia e a estação de trem onde os americanos ficaram encurralados. É a visão da imprensa americana da época, que retrata os panamenhos de forma caricata e racista. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Referências

  1. Kennedy, John Castillo. Incident on the Isthmus. American Heritage, 19(4), jun. 1968. Acesso em 3 nov. 2026. https://www.americanheritage.com/incident-isthmus
  2. Congressional Research Service. Instances of Use of United States Armed Forces Abroad, 1798–2023 (R42738), 2023. Acesso em 3 nov. 2026. https://www.everycrsreport.com/reports/R42738.html
  3. Autoridad del Canal de Panamá. History in Pictures: 107 Years of the Panama Canal, 2021. Acesso em 3 nov. 2026. https://pancanal.com/en/history/