A paçoca de carne e os bandeirantes

O muralismo é o movimento artístico que ocupa espaços públicos com grandes pinturas. Portinari e Clóvis Graciano estão entre os nomes mais conhecidos por aqui. Graciano pintou, em 1969, a Partida dos Bandeirantes, painel que hoje está na Câmara Municipal de São Paulo. Talvez o tema não faça muito sentido para os cariocas, nascidos em berço esplêndido sob a égide da Coroa portuguesa. Mas, para boa parte do Brasil, que não gozava da presença d’El-Rei, a solução era partir para a luta. Daí o peso das bandeiras na memória paulista, ainda que os bandeirantes estejam hoje entre as figuras mais controversas da nossa história.
E como se alimentar nas longas jornadas Brasil adentro, com provisão que durasse? Com paçoca, uai, conta a tradição, que não consegui confirmar numa fonte confiável. Secar e tostar é um dos métodos mais antigos de conservar carne e peixe: Heródoto já contava de tribos da Babilônia que secavam o peixe ao sol e depois o socavam no pilão. A paçoca segue a mesma lógica: a carne seca e tostada era socada no pilão junto com farinha de mandioca, resultando numa farofa que se levava no alforje. E não tinha frescura: era pinçada com três dedos e jogada na boca, sem parar a marcha.
O nome vem do tupi pa’soka. Paçoca é, na verdade, um termo genérico para vários alimentos socados: tem de carne, de amendoim, de milho… Aqui, falamos da paçoca de carne, que ainda hoje é comida típica do Brasil Central.
Era um jeito prático de juntar a gordura e a proteína da carne ao amido da mandioca, numa forma “portátil” e muito calórica. E ainda tinha uma vantagem: podia ser feita durante a própria viagem, com a carne de caça e a mandioca encontradas pelo caminho. De sobremesa? Tá bem… um bloco de rapadura.
Imagem: retrato de Domingos Jorge Velho, de Benedito Calixto, 1903, Museu Paulista, domínio público, via Wikimedia Commons.
Referências
- Câmara Municipal de São Paulo. Acervo artístico da Câmara Municipal de São Paulo. São Paulo, 2016, p. 37–43 (Clóvis Graciano, Partida dos Bandeirantes, 1969). https://www.saopaulo.sp.leg.br/memoria/wp-content/uploads/sites/20/2017/03/livro_acervo_artistico_cmsp.pdf
- Heródoto. História, I, 200. Tradução inglesa de G. C. Macaulay, 1890. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/ebooks/2707
- Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, verbete “paçoca”. Acesso em 31 out. 2026. https://dicionario.priberam.org/pa%C3%A7oca